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Sobre o Futuro da Lã Portuguesa

June 20, 2016

É sempre bom quando se ouve falar na “retoma” do negócio da lã em Portugal. Quando, há umas semanas, ouvi esta reportagem da Antena 1, fiquei com alguma esperança. Mas também com muitas dúvidas e boa dose de apreensão.

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Ouvi com alguma preocupação a ênfase dada às Alpacas e ao Merino Alentejano, neste panorama da retoma económica da lã. De fora, ficam todas as nossas raças autóctones, que dão lã que não corresponde aos standards da grande indústria, ou lã que não é fofa e apelativa para um público pós-acrílicos. Chamou-me também a atenção o paradigma do sucesso que aparece nas palavras de alguns entrevistados: a grande quinta australiana, com ovelhas apuradíssimas para serem autênticas “máquinas de lã” vendida em bruto para a indústria de países como a China, onde muita da lã australiana (até a “made in Australia”!) é tratada.

O problema, como é mencionado numa outra entrevista da reportagem, é que não temos quintas grandes. Temos é muitos pequenos produtores, com pequenas propriedades. Se caminhamos para um futuro “à australiana”, essas pessoas correm o grande risco de serem completamente marginalizadas. Pergunto-me também quem serão esses novos ovicultores, que continuidade terão com os antigos, onde estarão localizados no país (Alentejo exclusivamente?). No momento em que a Austrália e os Estados Unidos vêem aparecer um novo mercado de lã “breed specific”, de pequena escala e de processamento local, será que estamos a ir atrás de uma ideia que já passou?

Outra questão é a reactivação do comércio da lã, sem o renascer da indústria de processamento. Portugal tem lã, mas não tem onde a lavar – sobretudo quando falamos de lãs “não standard” e de pequenas quantidades (existem, claro, algumas unidades industriais de grande escala). Desenvolver a lã sem desenvolver o processamento e exportar tudo em bruto — isto significa que os produtores perdem a oportunidade de vender a sua lã, de ficar com esse valor acrescentado. Significa também perder a oportunidade de criar toda uma rede de actividade económica em torno da lã e de a estender ao resto das fibras: do “negócio da lã” aos “negócios da fibra têxtil”. Uma rede como se tem estabelecido em vários países, como os Estados Unidos: há quem tenha ovelhas, quem tenha grandes fábricas, quem tenha pequenas unidades de produção, quem faça negócio da tinturaria, da seda, da tecelagem… Em Portugal, ter um pequeno rebanho e fazer fio das suas ovelhas é impossível. O sítio mais perto (que eu conheça) é a Filature de Niaux, em França, onde a melhoria da qualidade da lã está a agora a ser incentivada.

Pergunto-me se não estaremos a ignorar o nicho do mercado global (em expansão) que se interessa por lãs locais, de qualidade. Vejamos, a lã merina branca é agora comprada no Alentejo a 1,50€/kilo. Mas nos Estado Unidos, em 2013, o preço médio da libra (0,45 kilos) foi de 1,45USD. Isto na lã vendida para a indústria. As lãs vendidas para a fiação artesanal atingem valores muito superiores. Bons velos chegam regularmente aos 10-20USD por libra, vendidos directamente pelo produtor, sem lavagem. Não é preciso procurar muito online para ver velos que valem centenas de dólares pela raridade ou qualidade. Quem sabe se poderíamos também entrar nesse mercado, fazer das nossas Churras o que já são as suas primas americanas, as Navajo Churro, que se vendem agora mais caras do que as nossas Merinas.

Há muitos sinais positivos. A aposta no associativismo e na melhoria genética são excelentes. Só em evitar “kemp” ou os tais “fios de prata” há imenso para fazer! Criar a ideia de que há um público mundial para a lã é essencial. E estas são mudanças cujo efeito só se fará sentir daqui a uns anos. Pode ser que entretanto se crie também um modelo de desenvolvimento centrado nas pequenas produções, na variedade e na raridade das nossas ovelhas.

3 Comments leave one →
  1. June 20, 2016 7:29 am

    A mudança começa quando alguém da nossa “geração” montar uma pequena fábrica. Já escrevi noutro lado que era uma maneira fantástica de unirmos esforços. Outra via a não descurar é a dos projectos de desenvolvimento local com processamento e fiação manual, que só o projecto Lhana faz neste momento (a Retrosaria trabalha apenas directamente com algumas fiandeiras, o que não é bem a mesma coisa e o “Salva a lã…” dediludiu bastante nesse departamento). A existência de pessoas que dominam os processos artesanais antigos distingue-nos dos outros países ocidentais e é trágico haver casos em que no prazo de dez anos isso terá acabado.

  2. June 20, 2016 7:03 pm

    Excelente texto! E muito interessante!

  3. June 20, 2016 9:49 pm

    Boa reflexão…acho que as respostas estão nas tuas próprias palavras e o q a Rosa incide no seu comentário. Só se precisam de alguns esforços, o conhecimento já la está, do mercado, da técnica e dos Mestres.
    Seria uma pena que Portugal não soubesse valorar esse património tão rico.

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