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Género, Feminismo e as Universidades em Portugal

April 19, 2014

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Encontrei esta entrevista no Público há dias. Para mim tem uma importância especial. Nunca estudei numa universidade portuguesa, e pergunto-me como são e como estão as coisas para quem faz Filosofia, política e feminista. E como é ser fazer investigação académica em questões de género em Portugal? Nesta entrevista encontrei respostas interessantes e perturbantes. Mas não é que tenha ficado surpreendida, porque o resto – as relações de género na escola, os problemas no local de trabalho – isso é, infelizmente, são coisas que conheço bem.

Não conhecia o trabalho de Maria do Mar Pereira, mas o livro já está a caminho. A entrevista é de ler até ao fim. Os comentários só para quem ainda tiver dúvidas sobre a pertinência do assunto. Ficam aqui alguns destaques.

Sente discriminação no meio académico por ser investigadora?
Sim. A minha tese de doutoramento, que vai sair em livro para o ano, é sobre isso. [Em Portugal], sociólogas, sociólogos e professores universitários, supostamente as pessoas mais abertas, mais científicas da nossa sociedade, já me disseram que os estudos de género são sociologia para meninas. Uma área menor, de nicho, que só interessava às mulheres, como se os homens não tivessem género.

Se investigasse noutra área, sentiria na mesma discriminação?
Sim. Há mais sexismo nas universidades em Portugal do que em outras áreas, porque são espaços de grande hierarquia, onde não há muita circulação de pessoas, onde as pessoas ficam num cargo décadas. E onde impunemente discriminam sexualmente, assediam sexualmente.

No doutoramento que fez na London School of Economics, escolheu ir para as universidades portuguesas observar como são encaradas as questões de género. O que encontrou?
Em todas as universidades portuguesas, não há uma excepção, existe um discurso oficial e outro nos corredores. Mesmo que, no discurso oficial, se diga que estas áreas são muito importantes, nos corredores, nas reuniões, nas tomadas de decisão, o que se diz é que são umas mulheres ou uns homens homossexuais a fazer uns estudos que não interessam. Há uma coexistência de um discurso oficial que mudou muito nos últimos anos, de abertura e apreço pelo conhecimento, com uma vida informal, não oficial de corredor, de um grande sexismo, homofobia, fechamento e marginalização de uma série de áreas. Por um lado, parece que a situação está melhor, mas ao mesmo tempo está pior, porque torna-se mais difícil chamar a atenção para esse sexismo e esse conservadorismo. Está escondido, não há tantas provas de que, de facto, existe. Um livro que no estrangeiro é reconhecido como o melhor livro, que faz o maior contributo no mundo, em todas as áreas, em Portugal é tratado como uma área menor que só interessa às mulheres.

 

O estudo agora premiado, assim como o doutoramento, foram feitos com o apoio da Fundação para a Ciência e Tecnologia?
Sim. O Estado português investiu muito dinheiro na minha formação, no liceu, na faculdade, e na formação de outras pessoas, para eu agora estar a dar aulas a alunos e alunas ingleses e de outros países. Faço-o numa universidade inglesa onde o meu currículo e a minha formação são apreciados. Lá estão a reconhecer esta formação que foi financiada pela população portuguesa e cujos frutos não podem vir para a Portugal. Estou lá, em cada dia que passa, com muito pesar, porque sinto que a minha geração tem um contributo para dar a Portugal. Tenho muita pena de ter tido de ir lá para fora. Não vou negar que lá há condições de trabalho óptimas e isso é aliciante. Mas não estou a devolver o meu conhecimento ao país que me formou e que ajudou a financiar a minha formação.

2 Comments leave one →
  1. April 20, 2014 5:33 pm

    Acabo por ter uma ideia diferente; A minha área é engenharia e estou a fazer investigação na mesma área. Quando o projecto começou havia um rapaz, mas agora somos só meninas e nunca senti qualquer tipo de discriminação – pelo contrário, as minhas ideias são ouvidas e não me sinto de todo posta de lado. O meu chefe é impecável, ouve as nossas ideias e ajuda-nos sempre que precisamos. Mais uma vez, acho que a minha experiência pessoal provém de ser uma área diferente – acredito que nas ciências sociais o panorama seja completamente diferente e daí todos os problemas aí levantados
    Boa Páscoa (:

    • April 24, 2014 4:12 am

      Ainda bem Sara! É bom saber que as coisas andam bem numa área como a engenharia – que aqui nos Estado Unidos faz parte das tão problemáticas STEM, as ciências, tecnologias e engenharias que continuam com muitos problemas em recrutar alunas e investigadoras.

      E não é a primeira vez que fico a saber dessas boas experiências. Pergunto-me se tem muito a ver com o investimento relativamente recente na investigação das engenharia/ciências aplicadas. Realmente continuo com as minhas dúvidas sobre as humanidades, e sobretudo com a investigação sobre género… A própria Filosofia, aqui nos Estados Unidos, é bem conhecida por alguns destes problemas e por uma grande dificuldade em recrutar mais mulheres para a vida profissional.

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