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Homens, Mulheres e o Ponto que Falta nas Malhas em Portugal

April 27, 2013

Há um assunto que se está a tornar recorrente em alguns dos últimos posts deste blog: homens, mulheres e tricot. Quem me conhece, já me ouviu falar disto. Talvez haja quem ache que é uma conversa que não faz sentido, ou até posso estar muito mal informada. Mas ninguém diz nada e eu continuo a pensar no assunto.

No contexto tradicional Português, o trabalho da lã, a fiação, o tricot, o crochet foram sempre, em geral, coisas de mulheres . Nunca ninguém aprendeu a fazer malha com um tio ou um pai. A avó é que fiava. As mulheres faziam meia, cuidavam da casa e tratavam da lã. Excepções sempre houve, como os campinos ribatejanos referidos em “Malhas Portuguesas” e os homens açoreanos que há alguns anos foram notícia. Tirando isso, todo o mundo das malhas esteve historicamente ligado ao mais rural universo do domínio doméstico feminino, ou ao mais burguês mundo da “menina prendada”. O legado e o saber da lã e do tricot são sistematicamente identificados, material e simbolicamente, com as mulheres.

E se o legado do passado é feminino, quem recebe esse legado hoje em dia são também, outra vez,  mulheres. Penso que não é controverso dizer que em Portugal (como noutros lados) o panorama do “novo tricot”  e do renovado interesse pela lã é ocupado quase exclusivamente por mulheres. Nos blogs, mulheres. À frente das lojas, mulheres. Vejo fotografias de encontros e workshops, quase sempre só mulheres. São tricotadeiras e fiandeiras, senhoras de idade e raparigas novas. Mulheres e mais mulheres.

Agora, pergunta a leitora, ou o leitor:  qual é o problema?

 Qual é o problema da malha ter sido, tradicionalmente, uma coisa de mulheres? Se calhar isto é até uma prova de superioridade ou um facto neutro sobre a divisião social das tarefas.

 Qual é o problema de, agora, só as mulheres se interessarem pelas malhas e pela lã? Vivemos num ambiente social (supostamente) liberal e cada um faz o que quer. Os homens não querem participar, e depois?

 E uma feminista não devia estar a preocupar-se com a valorização das mulheres e do seu trabalho? Para quê falar dos homens?

Quero sugerir uma ideia geral como resposta: o domínio exclusivo das mulheres é altamente nocivo ao desenvolvimento das artes e técnicas ligadas à lã e, indirectamente,  é mesmo contrário ao desenvolvimento individual das próprias mulheres.

 

Tradicionalmente, a forte associação da malha e da lã às mulheres não é acidental mas faz parte de uma estrutura social, mais ou menso consistente, em que o trabalho doméstico – reprodutivo, e não produtivo – era feminino. É um esquema em que, como se diz, o trabalho de uma mulher é fazer e desfazer. É limpar o que vai ser sujo, e passar o que vai ser amarrotado, cozinhar o que vai ser comido. É sustentar a vida que há para além da casa sem nunca alcançar nada de definitivo. Quando não existia “prêt-à-porter”, fazer malhar era parte desse conjunto de actividades básicas de sustentação de tudo o resto. Depois há o lado decorativo, que substituiu e conviveu com esse outro lado mais básico. Os naperons repetidos ao infinito, copiados e re-copiados até não haver espaço em casa para mais nada. Reprodutivo, e não produtivo. O problema do tricot ter sido uma coisa de mulheres é que foi sempre uma arte menor de fazer bibelots ou uma necessidade de sobrevivência que nunca atingiu o reconhecimento merecido. Era parte de um conjunto de valores e organização social que não beneficiava nem as mulheres, enquanto pessoas autónomas, nem o tricot enquanto arte.

A questão comtemporânea é talvez mais complicada. Mas eu gosto de comparar a situação com o problema que temos em Filosofia, na América do Norte, uma disciplina com ainda fraca percentagem de mulheres. Dado que não há nenhuma barreira visível à entrada na profissão, não devia haver nenhum problema. Mas quando se olha à volta e, numa sala de filósofos, só há uma mulher ou duas, é estranho. Da mesma maneira, é estranho que não haja uma percentagem significativa de homens envolvidos nas malhas e no tricot hoje em dia. E, depois de se estranhar, explica-se e tenta-se mudar. Mas o que é preciso é estranhar, é pensar que isto não é normal e que há qualquer coisa errada num encontro de tricot sem um único homem de agulhas na mão – porque para tricotar só é preciso mãos, nada que os homens não tenham, convém não esquecer. Se estamos em pé de igualdade (…. vamos assumir que sim, só por agora….), e se o crossoma Y não incapacita ninguém para lidar com fios, isto devia ser tudo, no mínimo, estatisticamente muito improvável.

E chegamos ao centro da questão. Esta ideia das mulheres e da lã, do tricot e das mães é perigosa – sobretudo para o tricot e para a lã! E as mulheres também não saem bem desta história.  Quanto mais afastados os homens estão de todo o mundo das artes têxteis populares mais se reforça a ideia, com passado e peso cultural, de que há qualquer coisa que as mulheres têm em comum (que é em si um conceito já muito problemático) e que as predispõe para estas coisas. E, claro, não são as capacidades de liderança ou a especial agressividade intelectual que são aqui identificadas como femininas… Ao continuarmos a tratar destas artes têxteis em grupos sem homens estamos a deixar que se perpetue, com novas roupagems, a mesma associação de sempre entre mulheres, domesticidade e malha. E depois admiramo-nos que haja quem rejeite a fiação e o tricot por horror à ideia tradicional da mulher… Para além disso, sem a abertura efectiva do tricot a todos, como poderá a malha vir a ser mais do que uma “arte menor”, um pequeno “entretem” em que ninguém vê verdadeiro valor económico, técnico e artístico? Como podem as tradições da lã ser apreciadas, protegidas e desenvolvidas quando metade da população acha que isto são coisas que não lhes dizem respeito? E como podem as tricotadeiras verdadeiramente produzir obras que sejam grandes realizações da sua creatividade e saber técnico sem esse reconhecimento? Degrada-se a malha e, consequentemente, degrada-se a condição de quem a faz.

E depois há os homens, que se vêem excluídos de uma prática tão interessante. Numa época em que se começa a notar o insucesso escolar entre os rapazes e em que, finalmente, se começa a discutir a educação (ou falta dela) dada aos meninos, pergunto-me se não será tempo de se ensinar os filhos a fazer uns pontos. Temos de pensar nisto como um problema de exclusão tão sistemático que se tornou invisível. Nesta ausência de homens do imaginário colectivo do tricot,  é  impossível olhar para a falta de interesse por parte da população masculina como um simples facto em bruto. Seria como dizer que a falta de mulheres na chefia de empresas é um simples efeito dos cromossomas.

O que é preciso é, sobretudo, dar espaço e tornar normal a ideia dos homens participarem nestas comunidades do tricot e da fiação. Fazer disto um problema vísivel e questionar associações mentais automáticas, abrir a discussão. É preciso dar exemplos e até adequar pronomes e substantivos. É que um homem juntar-se a um grupo de “Tricotadeiras”  é improvável. Estranhar a ausência é o primeiro passo, não fazer uma festa cada vez que se vê um homem a tricotar é outro, mas muitos mais são precisos.

Entretanto, eu sonho com o dia em que homens e mulheres entrarão em número comparável em lojas de lãs (e por homens não quero dizer “maridos das senhoras que escolhem fios”), nos workshops, blogs e encontros. Sonho com o dia em que mais esta barreira que artificialmente cria um fosso de interesses seja abolida, em que se vejam casais a tricotar juntos e miúdos que contem histórias de quando o avô lhes ensinou a fazer um cachecol.

2 Comments leave one →
  1. April 28, 2013 9:27 pm

    A ideia de que é preciso os homens interessarem-se por este tema para que ele vingue (nos vários sentidos que referes) revela um mundo dominado pelos homens (é tramado). É que não foi preciso as equipas de futebol serem mistas para o desporto ter a popularidade que tem. Pessoalmente a minha luta tem sido mais a de lutar contra o preconceito que há mesmo entre mulheres – são muitas as que continuam a achar que fazer malha (sobretudo em público) as rotula como domésticas ou domesticadas ou inteligentes de menos para se ocuparem com outras coisas…

    • April 30, 2013 6:19 pm

      Na verdade, a minha preocupação com o tema vem de uma outra perspectiva. É que para mim fazer tricot e fiar nunca foi desprestigiante em nenhum sentido. Muito pelo contrário, e se calhar o facto de a maior parte dos meus amigos não serem portugueses fez também com que assim fosse. É que na Dinamarca e na Finlândia, por exemplo, o tricot é ensinado em muitas escolas e alguns dos rapazes gostam e continuam.
      E aí está a questão – se o que eu faço não tem nada de desprestigiante e não tem nada a ver com o que tradicionalmente confinava o tricot às mulheres (a “sensibilidade” feminina, a domesticidade ou o que seja), então porque é que só há mulheres (geralmente) a fazê-lo? E isto, independentemente da popularidade da actividade – que penso estar em franco desenvolvimento e ter muito futuro. Haverá então qualquer coisa a que não estamos a prestar atenção… Expliquei a minha sugestão do que se passa, mas o importante mesmo é notar o estranho que isto é e talvez avançar hipóteses sobre o assunto.

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