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A ler – “Mulheres de Bucos”

April 25, 2013

Outro dos livros que tinha debaixo de olho há já algum tempo era “Mulheres de Bucos – Trabalho da Lã”.

Mulheres De bucos_Sataya

Conheci o trabalho das ‘Mulheres de Bucos’ pelo site “Saber Fazer”. É um daqueles casos fascinantes e raros de preservação do que já desapareceu de quase todo o lado, sobretudo para quem gosta de lã portuguesa. E é isso que o livro como objecto físico é também – fascinante. A conjugação das excelentes fotografias da Alice Bernardo com a escolha do papel, e da própria disposição pouco usual das páginas, faz deste um objecto especial, mesmo antes de ler uma palavra que seja.

O livro conta com a participação de vários intervenientes e é nestes textos que transparecem duas preocupações importantes e que parecem motivar o projecto: a (já recorrente) questão da lã que é queimada “por falta de quem a queira”; e também a falta de consideração pela arte da lã, e pelas mulheres que a praticaram tradicionalmente com técnica e dedicação. De facto, esta visão do trabalho da lã como uma “arte menor” e doméstica sempre foi um dos maiores entraves ao seu desenvolvimento e, indirectamente, à própria igualdade de género (matéria para posts futuros).

E é aqui que as coisas se complicam. “Mulheres de Bucos” é sem dúvida, um trabalho documental imprescindível, de grande valor estético, e um merecido tributo a quem se auto-valorizou pela persistência e organização, como é o caso deste colectivo em Cabeceiras de Basto. Mas, precisamente por causa desta justeza documental, é também um livro que levanta muitas questões sobre como olhar para estas mulheres, para este mundo rural em vias de extinção e para o que elas fazem. Sobretudo, para quem faz coisas parecidas e vive uma vida bem diferente.

lã portuguesa_sataya

Penso que a questão é como se posicionar perante o documento, perante estas práticas, e qual o nível de identificação apropriado com a comunidade descrita por parte do leitora ou leitora. Por um lado, não consigo deixar de me imaginar como participante no universo das práticas da lã das “mulheres de Bucos”, porque uso as mesmas técnicas e porque , pela primeira vez, vi e senti fio comparável ao que eu fio (o novelo de amostra que acompanha o livro é o mais comparável aos meus fios que encontrei até agora). As descrições detalhadas do trabalho da lã ajudaram-me a refinar processos que fui aprendendo por mim, como a lavagem. Pela primeira vez percebi que o que o meu produto final está no bom caminho.

No entanto, essa identificação com as “mulheres de Bucos” começa na prática mas parece esbarrar precisamente na concepção dessa prática. Chamou-me à atenção a consideração feita, logo na primeira página, sobre estas mulheres. “A elas poderemos aplicar a locução latina ‘casta fuit, domum servit, lanam fecit’…”  ( “o que traduzido do latim, de forma livre, quer dizer ‘foi casta, cuidou da casa, fiou a lã’”). Se calhar são palavras pouco representativas do livro, mas a minha reacção é imediata e a suspeição está lançada. É como quando me dizem que sou “prendada”. Pode não querer dizer nada, mas pergunto-me imediatamente se não estaremos a conceber a actividade da lã de maneiras completamente opostas. Se, afinal, o que eu faço não é conceptualmente diferente do que aqui se descreve.

Por outro lado, o livro em si não pede participação nenhuma. As coisas são como são, e são documentadas assim. O que se pretende é valorizar o que as pessoas fazem, como o fazem e não falar delas de uma maneira necessariamente inclusiva para o leitor. No entanto, é me difícil ter um olhar mais afastado e evitar o que se chama em inglês o “othering” – o fazer do “outro” outro. O “outro” rural, o “outro” que fia com as tradições ancestrais e cuja sensibilidade estética se torna pitoresca, removida do nosso mundo. É o campo vs. cidade, mulheres vs. homens, natural vs. artificial, antigo vs. moderno. É lindo, mas é exótico. Esta é definitivamente uma questão que deve afligir sociólogos e curiosos de mil e um assuntos. Mas aqui aparece também, e eu deparo-me com ela há já algum tempo.

fiar_sataya

Por tudo isto, “Mulheres de Bucos” é o um livro importante, porque é importante conhecer, ver e sentir. E é raro um livro transmitir um universo estético de maneira tão completa. Mas é também crucial  (sobretudo para quem gosta do trabalho da lã e de Filosofia Feminista) reflectir sobre o lugar que deve ocupar no nosso olhar esta actividade no seu contexto tradicional.

Posto isto, vou passar a tarde a lavar lã…

2 Comments leave one →
  1. May 19, 2014 9:04 am

    Olá Filipa,
    só hoje encontrei esta tua menção ao livro das Mulheres de Bucos, e queria agradecer-te por ela.
    Principalmente por teres lido o livro com atenção, e por isso teres reparado em imensas coisas que são muito importantes.
    Concordo com a tua “review” plenamente. De facto, o livro tem duas partes distintas, escritas por duas pessoas com perspectivas bem distintas.
    O levantamento e registo técnico, tanto escrito como fotográfico, foi inteira e exclusivamente realizado por mim. Exactamente por existirem tantas questões de índole social que envolvem as pessoas e o trabalho que registei, a minha opção neste tipo de trabalho é sempre fazer um registo directo, quase frio da técnica, excluindo essas questões. A parte técnica já é tão complexa só por si, que preciso de a separar de tudo o resto para realizar uma documentação digna.
    No entanto, o livro foi-me encomendado, a partir da documentação que já tinha iniciado por conta própria, para fazer parte da exposição da Casa da Lã, onde trabalham as Mulheres de Bucos. E, por isso, houve uma introdução e enquadramento realizado pela directora do Museu, cuja visão do ofício é bastante diferente da minha. Não me surpreende por isso que te tenha chamado a atenção a consideração da primeira página. Talvez porque percebeste logo que não está em sintonia com o restante conteúdo, e de facto não está. E ao não estar, levanta todas as questões que mencionaste com razão.

    No que ao registo diz respeito, a parte boa é que a minha investigação foi bem mais profunda do que o que foi publicado neste livro. Espero pôr isso cá fora em breve.

    obrigada e beijinhos,
    Alice

    • May 20, 2014 5:00 pm

      Obrigada pelo comentário Alice! Foi um dos livros que me ajudou a fazer melhor, e a desenvolver técnicas mais eficazes com menos recursos. Aguardo com expectativa o resto desse material de investigação! 🙂

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