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A ler – “Malhas Portuguesas”

April 16, 2013

Muito foi já escrito sobre “Malhas Portuguesas”, o aguardado livro de Rosa Pomar. Eu própria encomendei a minha cópia há quase um mês, mas como andei em viagens por outras paragens ainda não tinha tido tempo de o ler. E fiz questão de o ler todo, do princípio ao fim, antes de dar também a minha opinião.Image

 

Sou talvez uma leitora mais exigente do que o normal. Afinal o tricot e a lã portuguesa ocupam quase metade do meu tempo. Para mim, isto importa, e muito. Sempre achei que não se pode pegar no tema das artes têxteis tradicionais portuguesas de qualquer maneira, sem uma visão teórica e crítica. É complicado, e são precisas convicções, mais do que mera curiosidade ou boas intenções.

Mas é precisamente nisto que o livro da Rosa Pomar se destaca – uma aproximação pensada e reflectida às realidades populares e rurais, informada por um conhecimento técnico, académico e cosmopolita das artes têxteis. Sem nunca deixar de estar involvida na prática que descreve. É algo de radicalmente diferente do que até agora se escrevia. Não é a preservação folclórica da ‘tradição’, nem o superficial e irrealista tratamento do ‘saber popular’ no “campo” bucólico. Há uma linha de pensamento definida e o livro segue-a. A ideia de dar “preferência às peças de uso quotidiano e popular, em detrimento das feitas apenas com propósito decorativo ou como passatempo” (pg. 39) é prova disso. E deixa-me particularmente satisfeita. Posiciona a narrativa do tricot fora dos “lavores de senhora” e do meramente folclórico. Dá ao tricot no seu lugar como arte, popular e não só, e como forma de produção artesanal importante.

As expectativas são elevadas também porque me identifico com a experiência por detrás do livro. Embora seja bastante mais nova, passei também por uma transição como a que é descrita na introdução: de adaptar camisolas de revistas dos anos 80, com as semi-lãs da Brancal, a aceder aos mais actuais modelos de todo o mundo pela internet e fiar os meus próprios fios. Também por isso não tenho ilusões sobre os limites materiais e estéticos dos meios rurais portugueses, onde nem sempre a creatividade ou o próprio interesse por estas coisas são bem recebidos. É tudo bastante complicado.

As primeiras duas secções do livro, “História das Malhas” e “Malha em Portugal” (uma tipologia de modelos e materiais), foram de particular interesse para mim. A contextualização da malha ou do tricot é fundamental para começar a perceber o complicado que é isto de gostar de fazer malha em Portugal (sobretudo tendo 20 e poucos e a estudar no estrangeiro “coisas lá de fora”) . Dizem-se coisas importantes. A partir do século XIX, fazer malha permitia às raparigas do povo “não só a confecção do vestuário familiar como uma ocupação digna e um meio de subsistência em caso de necessidade, uma ocupação apropriada a pessoas de muita idade, orfãos, deficientes, entre outros” (pg. 21). Quantas conversas com a minha avó não estão aqui explicadas. Fala-se das agulhas de barbela – que nunca consegui usar e sobre as quais ainda tenho dúvidas – das feitas com varetas de guarda chuva e com rodas de bicicleta. Sem glamour, as coisas eram o que eram. Refere-se a maneira como se aprendia “sobretudo por imitação, a partir de peças confecionadas ou amostras” (pg. 23), com todas as limitações que isso tem e continua a ter. Fala-se das colchas de Mogadouro, que fazem parte da minha casa há tantos anos, e das meias feitas pelos campinos do Ribatejo, de que nunca tinha ouvido falar – o singular exemplo da malha nas mãos dos homens ( a inclusão de género no tricot será matéria para mais um post brevemente)

A secção de aprendizagem, “Técnicas”, é outra coisa que faltava. É tudo ensinado à portuguesa, como eu tricoto e sempre tricotei.  E entre a técnica da Serra do Motemuro e a Bainha de Bicos, há coisas novas a aprender, mesmo para quem já fez bastante malha.

Sobre os 20 modelos originais, a secção que eu mais aguardava, tenho opiniões mistas. Há técnicas e construções que adorei. O destaque vai para o Tapete de Trapos, os padrões mindericos – iguais aos da colcha que tenho desde sempre – a Gola de renda e ainda as Perneiras da Serra de Ossa.

Image

Mangas Mindericas e a Colcha Minderica

 

No entanto, para quem gosta de camisolas e projetos grandes como eu, falta mais qualquer coisa para além das mangas e das golas. Faltam, sobretudo, camisolas. E é logo o que eu gosto mais de fazer… Há também pouco material sobre isso nos capítulos anteriores. Mas se calhar não somos país de muitas camisolas, tradicionalmente, em malha. Mas, se é esse o caso, eu gostava que passássemos a ser. E talvez também de saias, e de casacos. Está aí ideia para mais investigação e mais modelos. Pergunto-me o que se poderá ainda saber das camisolas de lã da ilha de Santa Maria. Ainda tenho duas em casa, que vesti enquanto serviram e que os meus pais trouxeram de lá, quando ainda se compravam camisolas feitas mão por lá.

Devo também deixar uma referência à tinturaria tradicional. Aqui está outro livro para ser escrito, e que vale a pena ser escrito pela mesma razão das “Malhas Portuguesas”. Por que cá, não há. Guio-me por livros sobre tinturaria natural californianos, mas falta-me saber mais sobre técnicas e produtos derivados da flora local e não tem sido fácil encontrar quem perceba do assunto.

A ideia final é essa. Nunca se tinha visto nada assim, nunca ninguém tinha falado de fazer malha assim. “Malhas Portuguesas” é um dos livros que faltava, porque ainda faltam tantos. Mas este primeiro já é um clássico.

 

7 Comments leave one →
  1. April 16, 2013 8:08 pm

    Muito obrigada, adorei ler esta crítica tão construtiva! É verdade que faltam receitas de projectos mais arrojados, maiores. E é verdade que somos um país de relativamente poucas camisolas – é difícil estudá-las porque raras são as que sobrevivem nos museus. E parto para Santa Maria amanhã, vamos ver que camisolas lá encontro!

  2. Catia permalink
    April 17, 2013 10:55 am

    Sobre tinturarias: eu não sei nada sobre o assunto, mas as Capuchinhas (http://capuchinhas.blogspot.pt/) usam métodos tradicionais para tingirem os seus fios (referem o uso de líquenes, por exemplo), se as contactar talvez a possam ajudar?

    • April 17, 2013 2:58 pm

      Não conhecia esta cooperativa tão interessante. Obrigada pela dica Catia!

      • April 17, 2013 5:21 pm

        As capuchinhas aprenderam com pessoas de fora… Mas em algumas aldeias, sobretudo do norte, ainda há quem saiba muito sobre a tinturaria de há algumas gerações atrás. Vale a pena ver os posts da Daniela sobre este assunto: http://umaovelhanoquintal.blogspot.pt

      • April 18, 2013 8:08 pm

        Vale mesmo – excelente recomendação! Aqui está material para leituras/experiências futuras.

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  1. Homens, Mulheres e o Ponto que Falta nas Malhas em Portugal | The Flying Fleece
  2. As Camisolas de Santa Maria | The Flying Fleece

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