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Se calhar não merecemos outra coisa

January 15, 2012
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Em Dezembro, viajei de Vancouver até Coimbra para estar com a minha família, para descansar, mas também para voltar a Portugal. Para ver o que se passava, como se estava a viver, o que se dizia na televisão.

Cheguei na altura certa para apanhar  o escândalo, no verdadeiro sentido da palavra, do “apelo à imigração” feito por Pedro Passos Coelho. Os professores desempregados devem olhar para o mercado “lusófono”. Pensei que este tipo de proposições demonstrava nada mais do que um erro, um lapso. Talvez seja isto que Passos Coelho pensa, mas sabe que não o pode dizer, achei eu. Era uma demonstração de insensibilidade às questões coloniais , e um absurdo: um chefe governamental apelar ao “brain-drain” e ao empobrecimento intelectual e social do seu país era inconcebível.

Não foi um erro, como ficou demonstrado pelas numerosas declarações de vários membros do governo e de outros, como Paulo Rangel, de quem saiu a sugestão de uma agência para apoiar a emigração. A gota de água, para mim, foi o impressionante e chocante discurso de Miguel Relvas, aqui relatado neste artigo:

Se nós olharmos para a nossa história, sabemos que sempre que nos encostaram ao oceano foram os momentos de maior glória da nossa história”.
“Esta é uma emigração muito bem preparada. Nós investimos significativamente nos últimos 20 anos numa geração e hoje não lhes damos aquilo de que eles precisam, que é o emprego”

A direcção parece então claramente definida pelo governo português: os jovens com formação superior devem virar-se para a emigração, sobretudo para as ex-colónias, como Angola ou Brasil.

Tudo isto é, no mínimo, inqualificável, só por si. Para mim, em particular, é insultuoso.

Estudo no estrangeiro há 6 anos, estou prestes a acabar um curso em Filosofia, numa universidade Canadiana, de onde este governo tirou até um ministro. Pretendo continuar a estudar e a investigar áreas como a Filosofia Política e Social. Mas para isso vou ter de continuar no estrangeiro – em Portugal não há programas de doutoramento com saídas profissionais minimamente razoáveis.

Eu sei o que custa viver fora do nosso país, eu sou parte desta emigração de que fala Miguel Relvas. Sim, adaptamo-nos e vivemos as nossas vidas em contextos que nos são e serão sempre tão estranhos e exóticos. Que remédio… Mas do que eu gostava era de viver no meu país, de falar a minha língua todos os dias, de discutir nas minhas aulas os problemas que mais me interessam, de participar na minha comunidade, de ajudar a construir o meu país. Miguel Relvas diz que os jovens portugueses em Maputo vêem o mundo com outros olhos. Eu também vejo. Viajar, conhecer, viver o mundo é algo para ser promovido. Mas viver como expatriado, como um exilado de um país relativamente próspero (não somo refugiados de nenhuma guerra ou fome) que não nos quer, é viver para sempre como alguém que podia ter feito mais, é perder parte da nossa autonomia enquanto pessoas.

É um país que não me quer. Quando fui estudar para o norte da Europa, com uma bolsa, tinha 15 anos e não via nenhum futuro. Sentia que, enquanto cidadã, não fazia falta a ninguém. Depois de tantos anos, voltei a achar que devia contribuir para mudar o Portugal, o lugar onde me sinto em casa. E agora, de novo, este país não me quer. O “realismo económico” de Miguel Relvas diz que eu aqui não sou precisa – que a minha vocação natural é andar pelo mundo, é nunca voltar. E eu pergunto: como é que se faz um país sem pessoas?

Este desencanto pessoal seria irrelevante se não fosse parte da tragédia nacional. Não consigo entender como é que Miguel Relvas, e todos os outros, conseguem proferir semelhantes declarações. O país está em declínio económico e demográfico. E os jovens são incentivados a emigrar? A camada da população com mais formação, as futuras elites culturais e intelectuais, os artistas e os técnicos: para fora? Não estarão eles familiarizados com o caso de tantos países em desenvolvimento, que vêm a sua mão de obra qualificada escapar-se-lhes por entre os dedos? Acharão que são os reformados que vão criar empresas, desenvolver novas ideais, dinamizar a sociedade? Temos um governo que, ou apela ao empobrecimento do país, ou acha que os jovens com formação não são um valor. Não sei o que é pior.

E, finalmente, isto é também a prova de que, em Portugal não nos lembramos das coisas o suficiente. O Atlântico Sul? O oceano e a glória? Sim, obtivemos glória em Angola, em Moçambique e no Brasil – colonizando, explorando, aniquilando e impondo as nossas crenças, língua e cultura. É essa a glória a que devemos voltar, aquela que levou à sangrenta Guerra Colonial Africana de há não muito tempo? A própria ideia de que países como Angola são “lusófonos” – um mercado para professores portugueses- , quando têm 6 línguas nacionais, é o ignorar de todo um passado de imperialismo cultural sobre o qual ainda não reflectimos o suficiente. Este novo “Para Angola, rápido e em força” é fértil em problemáticas neo-coloniais que, infelizmente, ninguém parece querer abordar.

Portugal desistiu, este governo desistiu. Resta-nos envelhecer, ouvir histórias do que se passa lá fora e voltar ao Portugal do antigamente, à agricultura de subsistência, à falta de espírito crítico. Estamos a andar para trás e a formar o futuro dos outros.

Se calhar não merecemos outra coisa.

2 Comments leave one →
  1. January 23, 2012 9:53 am

    Compreendo perfeitamente a sua idignação. Também eu me encontro a estudar no estrangeiro há 4 anos e pouco e, embora sempre tenha tido a intenção de voltar para o meu país, as certezas começam a abandonar-me aos poucos (com muita infelicidade minha). Tantos sacrifícios que fiz neste tempo para agora me virem dizer que afinal querem é que os Portugueses vão para fora? Então e aquilo que podemos oferecer?
    Bem sei que estas questões não são simples, e que provavelmente os problemas pelos quais o país atravessa são difíceis de resolver, mas – e esta é a minha humilde opinião – não se deveria fazer algum esforço para que nós Portugueses pudessemos ficar no nosso canto à beira-mar plantado, se fosse essa a nossa intenção?
    Os meus colegas já me dizem “não voltes, pois não vai haver lugar para ti”. Como é possível que se chegue a isto?
    Recuso-me a acreditar que não posso voltar!

    (As suas luvinhas do post de cima são lindíssimas)

    • theflyingfleece permalink*
      January 28, 2012 8:02 am

      Muito obrigada! =)

      E obrigada também pelo comentário – é sempre bom saber que há quem não se conforme com a situação! É verdade que o cenário está efectivamente muito complicado para quem tem de tomar decisões. Mas temos de esperar mais de quem está à frente de um país, e da própria sociedade.
      Sublinho o “Como é possível que se chegue a isto?” – sim como foi possível? A verdade é que nada disto é assim tão novo. Eu lembro-me de há 10 anos, o espectro do desemprego dos licenciados já pairar . Penso que a resposta da entrada massiva e injustificada em medicina e ciências da saúde, tão encorajada socialmente, e a velha ideia do “doutor” de canudo que nunca deu espaço a uma verdadeira meritocracia social de competências, são dois dos grandes culpados também para a situação que se vive actualmente. O desespero dos desempregados é apenas um background para o desespero colectivo de uma sociedade que não sabe o que fez de errado e que por isso até deixa passar estes absurdos “apelos à emigração”…

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